quarta-feira, 15 de junho de 2016

A "Amoris laetitia" lida pela mãe de um jovem gay



"Há vários anos, quando conheci a homossexualidade do meu filho, eu me comprometi não apenas comigo mesma, mas também com ele e com a Pastoral da Diversidade Sexual (Padis+), da qual eu faço parte. Hoje, graças às mudanças que, como Igreja, temos experimentado em relação às pessoas homossexuais, eu também reconheço um desejo de buscar juntos novos caminhos de inclusão e acolhida para viver o amor nas diversas situações de vida que as famílias experimentam hoje em dia."

A opinião é da leiga católica chilena Carmen Luz Güemes Álvarez, integrante do Grupo de Pais da Pastoral da Diversidade Sexual (Padis+), de Santiago do Chile. O artigo foi publicado no blog Territorio Abierto, da Comunidade de Vida Cristã (CVX) da capital chilena, 25-05-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto para o IHU.

Eis o texto.

Quando me propuseram escrever para este espaço, a minha resposta espontânea foi sim. Eu não fiquei dando muitas voltas, apenas pensei, neste momento, que era uma oportunidade para expressar a minha opinião pessoal sobre a exortação do Papa Francisco e também senti que, através de mim, eu podia transmitir o que eu compartilhei com muitas outras pessoas, leigas e leigos membros da Igreja que, como eu, vamos a pé construindo esta Igreja, que é de todos, e dando testemunho da boa nova do Evangelho na cotidianidade das nossas vidas.

Pouco a pouco, fui me dando conta de que não seria tão fácil escrever, porque, ao fazê-lo, eu me exporia e me comprometeria publicamente, e isso às vezes tem os seus custos. No entanto, ao longo da minha vida, eu fui descobrindo e confirmando que eu quero viver a vida intensamente, aproveitando tudo o que me é dado e também o que me é tirado, e, para isso, não posso ser turista nem observar de longe a vida que me cabe viver, mas, ao contrário, ser protagonista dela.

Há vários anos, quando conheci a homossexualidade do meu filho, eu me comprometi não apenas comigo mesma, mas também com ele e com a Pastoral da Diversidade Sexual (Padis+), da qual eu faço parte, para ajudar a minha Igreja a avançar e a reconhecer plenamente a existência de milhares de pessoas que, como o meu filho, buscam um tratamento justo e respeitoso na sociedade e na comunidade cristã. Hoje, graças às mudanças que, como país e como Igreja, temos experimentado em relação às pessoas LGBTI [1], eu também reconheço um desejo de buscar juntos novos caminhos de inclusão e acolhida para viver o amor nas diversas situações de vida que as famílias experimentam hoje em dia.

É por isso que tudo o que foi vivido nos Sínodos prévios ao texto da exortação despertou em mim muitas expectativas e esperanças. Os documentos emitidos em cada uma das Assembleias davam conta de uma abertura, um novo tom pastoral. Muitos esperavam que o Papa Francisco se pronunciasse sobre assuntos que tocavam diretamente na vida dos nossos filhos. Ele mudaria a doutrina, deixariam de falar de "tendências" ou "comportamentos desordenados"? O que ele diria a nós, suas mães, pais, irmãos e amigos? Eu não posso deixar de esperar e confiar que as coisas vão mudar. Talvez não agora, não para nós. Mas sim para as gerações que virão.

Por isso, eu escrevo e, a partir daqui, também quero fazer a minha contribuição e mostrar o que os outros não veem, seja porque não podem, seja porque não querem. Mas eu sim posso, quero e devo fazê-lo. Porque na Padis+, eu encontrei uma nova missão nesta etapa da minha vida, pela qual eu me jogo e me entrego em plenitude.

A partir desse caminho, eu descobri o chamado do Senhor para ser testemunha do Seu amor misericordioso em nosso meio. Para proclamar, louvar e agradecer pela vida da Padis+, a "Alegria do Amor" encarnada.

Minha experiência de acompanhamento pastoral


O que vivemos diariamente na Padis+ [2] fala dessa Igreja acolhedora que queremos e ansiamos; essa Igreja de Jesus Cristo que não pergunta nem questiona, mas que abre os seus braços para acolher a quem se aproxima dela, sem condições de qualquer tipo. Fala de um sacerdote que se comoveu como Jesus fez diante da dor do homem e da mulher do seu tempo; que soube escutar e descobrir naquele primeiro encontro em 2010 o próprio Jesus encarnado naqueles jovens que o visitaram. Eles, assim como nós, "desnudaram" a sua fragilidade, os seus desejos e alegrias. Não lhes exigiu explicações, nem lhes ofereceu grandes respostas.

A Padis+ fala de uma comunidade eclesial, a Comunidade de Vida Cristã (CVX), que, sabendo ler os sinais dos tempos, quis ir à fronteira e embarcar em um caminho inédito de acolhida e inclusão na Igreja chilena para pessoas LGBT, suas mães, pais e família.

Dou fé e posso dar testemunho de como a boa nova do Evangelho se faz vida em cada pai e mãe que chega desesperançado e angustiado ao grupo, buscando formas de ajudar e acompanhar o seu filho ou filha depois de conhecer a sua homossexualidade. Muitos de nós experimentaram a rejeição e as culpas que, durante anos, nos paralisaram e afastaram dos nossos filhos, a vergonha e a falta de sentido, a violência e a agressão que alguns receberam, inclusive em nossas comunidades cristãs e a partir das nossas próprias famílias.

A Padis+ nos deu um olhar esperançoso e nos permitiu sair do círculo que nos mantinha trancados e estancados. Nela, reafirmamos que, apesar de todas as nossas dúvidas e temores, o amor pelos nossos filhos e filhas não muda, que a alegria que eles nos deram com as suas vidas segue intacta e que o nosso compromisso como mães e pais permanece, mesmo quando acreditamos que tudo está perdido.

Todos chegaram com dúvidas e dores. No entanto, apesar do desgarramento e da incerteza, nos alegramos e nos enchemos de alegria ao encontrar na Pastoral da Diversidade Sexual esse lugar que, no seio da Igreja, dá a vida e presenteia esperança.

Reconhecermo-nos em comunidade e saber que somos acompanhados por outros no caminho faz com que todos aqueles que fazem parte dessa Pastoral possam ter experimentado o Tabor de que Jesus nos fala no Evangelho, exclamando juntos, assim como os discípulos: "Como é bom estarmos aqui, armemos as nossas tendas". Ansiamos isso não só para nós, mas também para os nossos filhos e para todos os que ainda não se sentem plenamente convidados a instalar as suas tendas na Igreja.

A partir desse lugar é que eu valorizo o tom pastoral da exortação e me alegro que a sua chave de leitura seja o amor. Eu vejo o papa sendo consequente com aquilo que ele foi nos mostrando desde que assumiu como bispo de Roma, de querer ser bispo com cheiro de ovelhas, que saiu e convidou a Igreja a buscar a todos, sem exceção, sem discriminação de qualquer tipo.

O seu convite para que sejamos uma Igreja que sirva como hospital de campanha, distribuindo misericórdia e em atitude de escuta, nos lembra mais uma vez que a nossa fé deve ser "arruaceira" [callejera], que Jesus sai conosco e deve ir ao encontro do outro. Essa imagem é a que reencantou e reafirmou muitos de nós em nossas esperanças.

Tudo isso foi e é ar novo para a Igreja, e, através de Francisco, sentimos e reconhecemos o sopro do Espírito como um grito de socorro para recuperar o caminho que a Igreja tinha descuidado. O papa tem estado dialogando constantemente com a sociedade e também foi autocrítico sobre a sua ação e a de seus companheiros sacerdotes, convidando-os a serem humildes e próximos, a reconhecer que eles também foram responsáveis pelas maneiras com que apresentaram as nossas convicções e crenças como Igreja, especialmente em matérias relacionadas com a nossa sexualidade e vida afetiva.

Eu valorizo enormemente que se restitua a pessoa como centro da ação pastoral, e que parte do seu trabalho como pastores seja formar e acompanhar as nossas consciências, em nenhum caso substituí-las. Porque "a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa" (AL, n. 310).

Os desafios


Nesse sentido, eu não posso ficar somente na complacência da novidade que o papa nos mostra em seu tom e enfoque pastoral. No entanto, a Igreja fica em dívida, assim como o Papa Francisco. Não vou me deter sobre todos os pontos da exortação, mas vou me referir, sim, à linguagem utilizada para descrever a realidade dos nossos filhos e àquilo que acontece a nós como famílias ao conhecer a sua homossexualidade.

Embora eu valorize enormemente que não apareça nenhuma menção às frases com que o Catecismo descreve a sexualidade dos nossos filhos ("comportamentos intrinsecamente desordenados"), preocupa-me constatar que, para a Igreja, a nossa situação como famílias continua sendo compreendida como uma situação problemática e irregular. Como se ter um filho gay ou uma filha lésbica sempre fosse motivo de pena e dor, um fardo do qual temos que nos sentir culpados.

Agradeço pelo fato de que se considere a nossa realidade, por anos omitida, mas acho que a aproximação deveria sempre começar pelo positivo, não assumindo de entrada que o que vivemos é, per se, uma situação complexa.

Explicitamente, a exortação se refere à nossa realidade no artigo 250, dentro do capítulo sobre "Algumas situações complexas". E o faz descrevendo a situação das famílias "que vivem a experiência de ter no seu seio pessoas com tendência homossexual" (AL, n. 250).

Para além dos problemas de tradução [3] entre as diversas versões da Amoris laetitia, o texto se expressa de maneira incorreta e inaceitável para mim. Os nossos filhos e filhas NÃO têm tendências homossexuais, nem se tornam homossexuais ou estão em uma fase homossexual do seu desenvolvimento. Eles SÃO homossexuais, essa é a sua natureza, presenteada e querida por Deus. Não pode ser outra coisa.

A palavra "tendências" me fala de algo que se pode tirar ou mudar com força de vontade e capricho. É a armadilha em que muitos pais e mães caem, quando preferem não acreditar nos nossos filhos e os mandam para terapias para que mudem e corrijam as suas "tendências". Não é o que eu vejo no meu filho, em seus amigos e amigas; não é a forma pela qual eu me refiro aos heterossexuais. Não entendo por que insistir nessa linguagem.

Talvez, nessa insistência, esconda-se a dificuldade da Igreja de ajustar a sua doutrina à realidade das pessoas LGBTI. Não reconhecer a homossexualidade como outra expressão da sexualidade humana só nos mantém no mesmo estado de invisibilidade que a Igreja nos manteve ao longo da história e não dá luzes de querer ser essa Igreja profética que faz bagunça [hace lío] e se indigna com as injustiças, a violência e os maus tratos.

Como disse Pedro Labrín SJ em uma entrevista de rádio, não é necessário mudar a doutrina para que a Igreja erradique e condene todo tipo de práticas discriminatórias, injustas e violentas em relação às pessoas LGBTI. Quando entendermos que a linguagem também causa dano, e muito, compreenderemos por que muitos de nós continuamos considerando ofensivo que se reduza a experiência dos nossos filhos a um mero conjunto de tendências.

Isso também faz com que a Igreja continue olhando com receio e sensação de ameaça qualquer iniciativa que reconheça o direito universal ao amor e o cuidado entre pessoas do mesmo sexo. Eu desejo que o meu filho seja feliz. Se a sua vocação é o amor, e por sua própria natureza esse amor é com uma pessoa do seu mesmo sexo, eu vou apoiá-lo e vou lutar pela sua felicidade e pela de muitos mais. Porque a felicidade dos meus filhos, eu a desejo para todos igualmente.

Mais adiante, no oitavo capítulo da Amoris laetitia, o papa nos fala da Pastoral do Acompanhamento e assinala que "os sacerdotes têm o dever de acompanhar as pessoas interessadas pelo caminho do discernimento segundo a doutrina da Igreja e as orientações do bispo" (AL, n. 300).

Eu me pergunto: quem e como se acompanha os presbíteros, para que eles também possam fazer esse itinerário de acompanhamento e de discernimento? Para todos aqueles que são Igreja, leigos, religiosos e presbíteros, somos chamados a fazer esse itinerário.

A lógica da misericórdia pastoral que nos é proposta pelo papa é para todos. "Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus" (AL, n. 311), e, para que possamos ser essa Igreja acolhedora que distribui misericórdia, a casa paterna onde há lugar para todos, devemos avançar todos juntos.

O mundo homossexual também espera e está necessitado da compreensão, perdão e inclusão plena, para continuar crescendo e participando da Igreja. Ninguém deveria se ver obrigado a escolher entre a sua fé e a sua sexualidade. A Igreja deve favorecer os processos, e não impedi-los, muito menos contribuir para que a vida seja um problema.

Como leigos que somos, devemos confiar em nossas autoridades eclesiásticas e esperar delas o modo como esse documento vai ser "baixado". Deus continua nos conduzindo na Igreja, apesar de todas as nossas fragilidades. A Padis+ é um dos meios que Deus presenteou à Igreja. Assim como nós, há muitos mais trabalhando por uma sociedade mais justa, respeitosa e inclusiva. Oxalá o clero chileno e a sociedade como um todo possam trabalhar unidos e de forma colaborativa, para que nenhuma pessoa se sinta filho de segunda classe.

Que este tempo de Pentecostes nos permita sair dos nossos confinamentos e reconhecer a vida que existe fora dos nossos círculos. Que o espírito de discernimento nos seja dado e sopre forte em nosso meio, especialmente entre aqueles que terão a responsabilidade de "baixar" a exortação e fazer da "Alegria do Amor" uma experiência que toque a todos igualmente.

Notas:

1. Sigla que identifica as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais.

2. Para conhecer mais sobre o que fazemos na Padis+, recomendo-lhes a leitura desta reportagem da revista Viernes: "Papás por la Diversidad Sexual" [disponível aqui, em espanhol].

3. A esse respeito, recomendo-lhes a leitura da declaração da Rede Global de Católicos Arco-Íris, da qual a Padis+ faz parte [disponível aqui, em espanhol].

domingo, 17 de janeiro de 2016

"FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER..."

Reflexão de Lula Ramires, membro do Grupo de Ação Pastoral da Diversidade sobre o Evangelho das Bodas de Caná



As palavras de Maria, solícita em ajudar os noivos num momento de apuro em sua festa de casamento, ressoam - neste 2º Domingo do Tempo Comum - como a grande orientação que ela nos dá em relação a Jesus: sigam o que meu Filho pede porque não se arrependerão. E os primeiros a obedecerem a seu pedido são os serviçais e é só nesta posição de humildade, de quem se dispõe a servir aos outros, que podemos testemunhar os milagres que Deus opera em nossas vidas. O grande desafio então, me parece, é poder fazer silêncio e abrir espaço em nossos corações para que nos perguntemos, individualmente mas também como grupo católico LGBT que tem por missão resgatar pessoas feridas e discriminadas e reafirmar sua dignidade, o que a cada momento de nossa existência, Jesus nos pede...

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O nome de Deus é Misericórdia

O PAPA FRANCISCO DEFENDE QUE OS GAYS, PRIMEIRO, SÃO "PESSOAS": "NÃO DEVEM SER MARGINALIZADOS"


"Nenhum pecado é demasiado grande para Deus", afirma o Pontífice numa conversa com o jornalista Andrea Tornielli, que intitulou 'O nome de Deus é Misericórdia'. Entre outros temas, fala da homossexualidade e condena a corrupção: "O corrupto é quem peca, não se arrepende e finge ser cristão", afirma.


O Papa Francisco condena firmemente a corrupção, porque diz que não é mais um pecado, e rejeita
que os homossexuais sejam marginados pela Igreja Católica no primeiro livro-entrevista sobre o pontífice que se publica terça-feira. O volume, que tem por título 'O nome de Deus é misericórdia' e foi escrito pelo vaticanista Andrea Tornielli e publicar-se-á em mais de 80 países, entre os quais Espanha, ainda que os meios de comunicação italianos difundam já alguns excertos.

A propósito da corrupção, critica com firmeza, como já fez em reiteradas ocasiões ao longo do seu pontificado, as pessoas que cometem este delito. "Há que fazer uma diferença entre o pecador e o corrupto. O primeiro reconhece com humildade ser pecador e pede continuamente o perdão para se poder levantar, enquanto que o corrupto é elevado a sistema, converte-se num hábito mental, num modo de vida", expõe.

Segundo Francisco, "o corrupto é quem peca, não se arrepende e finge ser cristão; quem se lamenta pela escassa segurança nas ruas, mas depois engana o Estado evadindo impostos. Com a sua dupla vida, escandaliza". "Não é fácil para um corrupto sair desta condição para realizar uma reflexão interior. Geralmente, o Senhor salva-o através de grandes provas de vida, situações que não podem evitar (...). Há que repetir: pecadores sim, corruptos não", insiste.

Em relação aos homossexuais, afirma que não devem ser marginados e recorda as suas palavras pronunciadas no voo de regresso do Brasil a Roma em 2013 quando disse: "Se uma pessoa é gay, procura o senhor e tem boa vontade, quem sou eu para o julgar?". "Parafraseei então de memória o Catecismo da Igreja Católica, onde se explica que estas pessoas devem ser tratadas com delicadeza e não devem ser marginadas", aponta.

"Sobretudo gosta que se fale de 'pessoas homossexuais', porque primeiro está a pessoa, com a sua dignidade. A pessoa não é só definida pela sua tendência sexual: Não esqueçamos que somos todos criaturas amadas por Deus, destinatárias do seu infinito amor", prossegue.

Mas não só se refere a estes dois assuntos, como Bergoglio reflete também sobre a situação na que se encontram os divorciados recasados, sobre os processos de nulidade matrimonial ou sobre os presos que cumprem a condenação nas prisões. Para falar dos divorciados recasados, um dos assuntos que mais controvérsia suscita entre os setores progressistas e conservadores da Igreja Católica, o papa dá como exemplo o caso de uma sobrinha. "Tenho uma sobrinha que se casou pelo civil com um homem antes que este pudesse obter a nulidade matrimonial. Queriam casar-se, amavam-se, queriam ter filhos, de facto tiveram três", relata Bergoglio.

"Este homem era tão crente que todos os domingos, quando ia à missa, ia a confessar-se e dizia ao sacerdote: 'Sei que o senhor não me pode absolver, mas pequei nisto e naquilo, dê-me uma bênção'. Isto é um homem religiosamente formado", acrescenta. Francisco também aborda os processos de nulidade matrimonial para criticar os trâmites longos e custosos, e recordar a recente reforma anunciada em setembro e graças à qual agora serão mais ágeis, simples e econômicos.

Nas conversas com o vaticanista Tornielli, Bergoglio também alude a recordações da sua juventude e episódios relacionados com a sua experiência como pastor para explicar as razões que o levaram a anunciar este Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que começou a 8 de dezembro e que se celebra até ao próximo dia 20 de novembro. "A misericórdia de Deus é uma grande luz de amor, de ternura, porque Deus perdoa não com um decreto mas com una carícia", sustem.

Na sua opinião, a misericórdia é um valor primordial para os católicos, pois todos necessitam "da misericórdia de Deus", incluído o próprio papa. "Cada vez que cruzo a porta de uma prisão para uma visita me vem sempre à cabeça um pensamento: 'Porquê eles e não eu?''. Não me sinto melhor que eles, as sus caídas poderiam ter sido as minhas", sustem. "Quantos de nós não mereceríamos uma condenação? E seria justa. Mas Deus perdoa. Como? Com misericórdia", conclui Francisco.

http://www.antena3.com/noticias/mundo/papa-francisco-defiende-que-gays-son-primero-personas-deben-ser-marginados_2016011000058.html

Tradução de Aníbal Liberal Neves

sábado, 9 de janeiro de 2016

O Batismo de Jesus

Este domingo é um domingo de articulação: faz com que passemos da vida escondida do Cristo à sua vida pública. Esta passagem é importante: sobre as águas do Jordão, o Cristo foi manifestado como o Filho do Pai enviado para a libertação dos homens. E ficamos sabendo que somos filhos e filhas de Deus.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), sacerdote jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando as leituras da Festa do Batismo de Jesus (10 de janeiro de 2016). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara para o IHU.

Eis o texto.

O simbolismo do batismo

À primeira vista, estamos diante de uma incoerência: Jesus submete-se a um rito que é destinado a preparar a sua própria vinda. E mais; o batismo de João é «um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados» (Lucas 3,3). Quem, no entanto, poderia reconhecer o Cristo como culpado de qualquer pecado? Para compreender isto, é preciso que levemos em conta o simbolismo do Batismo. A imersão na água, morta e mortífera, e o soerguimento para fora do «abismo» fazem-nos repetir os cenários da nossa criação e do nosso nascimento, passando este por aquele. É preciso superpor a isto também a nossa travessia da morte, na Paixão e Ressurreição do Cristo. Em resumo, Jesus se fez batizar por João porque acabara de se fazer solidário com os pecadores, prefigurando por este rito a hora em que for assumir o semblante das nossas dores e do nosso mal. «Deus o fez pecado», dirá Paulo (2 Coríntios 5,21). Temos, portanto, logo nas primeiras páginas do Evangelho, anunciado desde já o final do percurso.

"O céu se abriu"

Mas, então, estivera o céu fechado até ali? Em certo sentido, sim. O que este «céu» representa só vai se abrir para a Ascensão e para a vinda do Espírito que, naquele exato momento, descia sobre Jesus. As presenças simultâneas do Espírito e da água (batismal) nos remetem mais uma vez aos primeiros versículos do Gênesis, em que o Espírito de Deus sobrevoa (a palavra hebraica evoca o voo de um pássaro) o abismo. «Deus criou o céu e a terra» como duas realidades separadas. Daí em diante, mesmo se céu e terra guardem entre si as suas diferenças, foram ambos postos em comunicação. Mas, em sua humanidade, Jesus só poderia ser declarado Filho depois de ter reunido os homens pecadores nas águas pascais. É característico que a citação do Salmo 2, «Eu hoje te gerei», seja usada ao mesmo tempo para o nascimento do Cristo, para o seu Batismo (segundo a versão a mais provável) e para a Ressurreição (cf. Atos 13,33; Hebreus 1,5, etc.).

Um resumo do mistério

Paulo dirá (Romanos 1,4) «estabelecido Filho de Deus com poder por sua ressurreição dos mortos». E já não era antes? Sim, mas era preciso que se tornasse o Filho, enquanto lastro de toda a nossa humanidade na qual foi enterrado, para nos fazer atravessar as portas. Por ser o Filho desde toda a eternidade é que pode tornar-se o Filho na espessura do nosso tempo. Por motivo de o seu Batismo recapitular toda a obra da salvação e antecipar a sua saída de glória é que, desde o ponto de partida, pode ser declarado Filho. «Primogênito» dentre os mortos (Colossenses 1,18). A palavra do Pai, «Tu és meu Filho», foi dita para nós que, daí para frente, temos de ver nele o Único, o depositário do Amor e do Espírito. E também foi dita para Ele. Daí em diante, já poderá se pôr a caminho, para afrontar e superar as tentações todas do homem (Lucas 4).


Referências bíblicas:
1ª leitura: «Eis o meu servo: ele não clama nem levanta a voz; não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio ainda fumegante» (Isaías 42,1-4.6-7)
Salmo: Sl 28(29) - R/ Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!
2ª leitura: «Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder» (Atos 10,34-38)
Evangelho: «Enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus» (Lucas 3,15-16.21-22)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

OUTRA LEITURA DE EFÉSIOS 2,1-10

Todo o texto de Efésios 2,1-10 fica sintetizado em pouco mais de um versículo, concretamente nas frases: “porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie”. Donde se destacam quatro palavras sobre as quais parece girar toda a reflexão: graça, salvação, fé e obras. As interpretações que se fazem deste texto são diversas já que cada uma delas nasce de uma pergunta distinta e portanto, dá prioridade a uma destas palavras sobre as outras três.

Se nos aproximamos da experiência da comunidade do século I onde nasceu o texto que estamos lendo, a pergunta que parece decisiva para o autor é: Quem se salva? Se os judaico-cristãos afirmavam que para além da fé em Jesus era necessário formar parte do povo de Deus, do judaísmo, e que tinha que se cumprir a Lei; os seguidores de Paulo, como o autor deste livro, afirmavam que Jesus Cristo tinha quebrado a barreira que separava o povo de Israel do resto da humanidade. Deus, por intermédio de Jesus Cristo, tinha reconciliado o mundo com Ele, por isso não fazia falta que os pagãos tiveram que se fazer judeus e cumprir todas as suas leis. Resumindo: todo o mundo podia salvar-se por intermédio de Jesus Cristo.

No século IV Agostinho, que, no início, tinha rejeitado o cristianismo com o qual a sua mãe o tinha educado, tinha passado grande parte da sua vida deixando-se levar pelas suas paixões e procurando um sentido para a sua existência. Nesta situação faz-se a pergunta: Como posso salvar-me? Uma pergunta que naquele momento o Pelagianismo responde dizendo que depende do que ele faça e o Maniqueísmo dizendo que não faz falta que faça nada, que tudo depende da vontade divina. Perante essa tessitura Agostinho acaba por encontrar a resposta à sua pergunta afirmando que há um caminho intermédio: Ainda que o ser humano seja livre, o pecado original limita-o e impede-o de fazer o bem, por isso é necessária a graça de Deus que lhe permite recuperar o domínio perdido sobre si mesmo.

No século XVI Lutero, um jovem, a quem o temor a um Deus castigador acompanhava procurava também a salvação, para isso era capaz de se autoflagelar procurando a reconciliação com Deus. As propostas que lhe oferecia a sua envolvente para encontrar a salvação era o sofrimento ou o pagamento das indulgências que lhe evitariam uma eternidade no purgatório ou no inferno. Perante esta experiência Lutero também se questiona: De que me hei de salvar? E tem-no evidente, tem que se salvar do inferno que o atormenta, da imposição caprichosa da igreja, do poder de um papa inquisitorial.

Dietrich Bonhoeffer no século XX viveu num momento em que o nazismo se apoderou da sociedade alemã. A igreja evangélica alemã, a que pertencia, simpatizou com o nazismo e ele, juntamente com outros cristãos e cristãs, separam-se e criam a Igreja Confessante. Neste contexto Bonhoeffer questiona-se: Para que serve a salvação? E a sua resposta é clara: a salvação necessita concretizar-se em obras que se oponham ao nazismo e sejam capazes de abrir espaços onde todas e todos possam viver, e também aqueles que não são como eu.

Quando uma pessoa é capaz de ler este texto a partir da sua experiência, o texto pode recuperar vida. Quando somos capazes de ler a partir da nossa situação, das nossas perguntas, medos ou alegrias, o texto bíblico pode-se converter num lugar de revelação. É a partir desta convicção que me pergunto, e vos animo a questionar-vos: Como posso relacionar na minha experiência conceitos como graça, salvação, fé e obras?

Salvação

De que temos de nos salvar? Se uma pessoa jamais teve necessidade de se salvar de algo, é evidente que este texto só o poderá ler a nível teórico, mas não entenderá nunca o que se está dizendo nele.

Se a resposta que damos parte de uma experiência pessoal, imagino que a maioria de nós pode dar uma ou várias respostas claras a esta pergunta, só faz falta que pensemos nos momentos nos quais nos sentimos oprimidos, nos faltava o ar, a vida. Depois, podemos analisar quais eram as razões, os mecanismos, que produziam esta situação opressiva. A salvação sempre é concreta, não teórica. A maioria das pessoas LGTBI pode dizer por exemplo que a heteronormatividade foi o poder que nos produziu, e continua produzindo, opressão e angústia e que é sobre ela sobre a que necessitamos salvar-nos.

Mas a salvação não tem unicamente uma dimensão individual, de facto a salvação deve ser coletiva para ser real. Não nos livraremos da homofobia sós, ainda que se necessite da nossa determinação. Acabar com a homofobia é uma tarefa de todas e de todos. E isto não acontece só com a homofobia mas com qualquer opressão. A nossa sociedade entende a miúdo a salvação como uma luta de uns contra outros, a minha salvação é a opressão de outros seres humanos, a minha salvação é a negação de outras salvações. Mas quando no cristianismo falamos de salvação, falamos da salvação de todas e de todos, para todos e para todas.

Para que temos de nos salvar? Esta é outra das possíveis perguntas. Se não queremos viver, se estamos bem tal e como estamos agora, qualquer mensagem sobre salvação não deixará de ser um discurso falso. Quem não é consciente de que necessita ser libertado, não procura a salvação. Muitas pessoas LGTBI procuram amor, aceitação, compreensão... mas não procuram salvação. Estão dispostas a aceitar a discriminação que existe nas suas famílias, no seu trabalho, na sua igreja, enquanto não são refeitas de uma maneira direta. Aceitam a homofobia porque não são capazes de acreditar que merecem ser salvos, merecem ser livres, merecem ser tratados como qualquer outro ser humano. Queremos a salvação para viver com dignidade.

Graça

A graça é um ato de amor de Deus para connosco que mostra a sua inequívoca vontade de nos salvar. Não são os nossos méritos, bons ou maus, os que justificam a vontade divina de nos salvar. A graça mostra o tratamento misericordioso de Deus para connosco não pelo que valemos ou por o que fazemos, mas pelo amor incondicional de Deus para connosco.
Os evangelhos falam desta graça de Deus manifestada em Jesus Cristo. Quando a gente que necessitava salvação se aproximava de Jesus para a pedir, ele libertava-as, dava-lhes vida. Nunca era uma ação legal que valorizava os méritos da pessoa oprimida. Era por misericórdia, por pura graça.
A graça fala-nos de um Deus que não quer o nosso sofrimento. Não têm sentido as teologias que pregam o sofrimento, nem tão pouco o aceitar a opressão resignadamente. Aqueles que nos pedem, em nome de Deus, que entendamos a homofobia, que aceitemos a homofobia de baixa intensidade, não nos estão falando do Deus da graça. A graça mostra-nos um Deus que sofre connosco e que está decidido a nos libertar. A nossa fé, para ser fé cristã, não pode estar posta num Deus castigador ou defensor da opressão, mas num Deus que tem a firme vontade de nos libertar e nos salvar.
A nossa esperança é viver plenamente e para isso temos de denunciar e não aceitar tudo aquilo que nos resta, que nos limita. Quem nos peça para aceitar a opressão, qualquer opressão, em nome de Deus, não nos está falando do Deus da graça.

Fé e obras

Muitas vezes perceberam-se estas duas palavras como antagónicas: Salvamo-nos pela fé ou pelas obras? O autor de Efésios não está a falar com esta lógica, quando falava de obras referia-se à Lei que os judeus seguiam. Eram o povo escolhido e tinham que ser fieis à vontade divina que se refletia na Lei que Deus lhes tinha dado. Por esta razão quando os pagãos se convertiam ao cristianismo (ainda dentro do judaísmo), houve uma tensão. Tinham que cumprir a Lei ou não? Paulo e os seus discípulos pensavam que não, e essa é a reflexão que encontramos no livro de Efésios. Aqui não se está a negar a importância da Lei, mas está a dizer-se que o que rompe qualquer barreira entre judeus e pagãos é a fé em Jesus Cristo.

Há muitas leis boas, temos critérios úteis para distinguir o que é bom e o que não o é, muitas vezes critérios baseados no texto bíblico, outras no que a nossa sociedade foi aprendendo ao longo da sua história. Mas acima de tudo está a fé naquele que quer a nossa salvação. Uma fé que não se baseia na crença ou afirmação de umas determinadas teologias, ou de unas abordagens políticas ou sociais, mas em por a esperança num Deus que quer salvar-nos a todos. E para isso temos que trabalhar, temos que nos mover e arriscar, como todo o mundo, que na realidade queria ser libertado, fez ao longo da história.

Na Bíblia a fé não é algo intelectual, é uma forma de vida, uma maneira de se mover por ela. Recordai que “graças à fé Abraão obedeceu e foi até ao país que tinha que receber por herança... graças à fé Moisés abandonou o Egipto sem temor à indignação do rei... graças à fé, Rahab a prostituta, que acolheu em paz os exploradores, não morreu com os que se negaram a crer...”

Cada um há de procurar formas e caminhos que lhe permitam libertar-se e libertar os demais. Como comunidade cristã também o temos que fazer. É nossa responsabilidade, o que se espera de nós. Não há soluções fáceis nem mágicas.

A jeito de conclusão

Nem todas as salvações que esperamos chegarão em breve, mas a graça de Deus acompanha-nos, a sua vontade liberta-nos. Se temos fé, se nos movemos não pela lei, tradição, ou verdade, mas com a determinação de acabar com tudo aquilo que nos oprime a nós e também aos que estão ao nosso lado; então poderemos sentir na nossa vida que tem sentido o texto que lemos: “porque por graça sois salvos por meio da fé; e isto não é vosso, pois é dom de Deus. Nem por obras, para que nada se glorie”. A salvação definitiva de Deus pode-se ver, percebe-se cada dia à nossa volta, pela fé das pessoas que decidiram não se deixar vencer pela opressão. Seja esta do tipo que for.



Carlos Osma
Tradução de Aníbal Liberal Neves
7 de janeiro, 2016


Artigo original em:
http://homoprotestantes.blogspot.pt/2015/11/otra-lectura-de-efesios-21-10.html#.VoHbvxWLTIU

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Traços de Maria

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus segundo Lucas 1, 39-45 que corresponde ao Quarto Domingo de Advento, Ciclo C do Ano Litúrgico. O teólogo espanhol José Antonio Pagola comenta o texto, traduzido e publicado pelo IHU.

Eis o texto


A visita de Maria a Isabel permite ao evangelista Lucas colocar em contato João Batista e Jesus antes inclusive de terem nascido. A cena está carregada de uma atmosfera muito especial. As duas vão ser mães. As duas foram chamadas a colaborar no plano de Deus. Não há homens. Zacarias ficou mudo. José está surpreendentemente ausente. As duas mulheres ocupam toda a cena.

Maria chegou depressa desde Nazaré e converte-se na figura central. Tudo gira em torno dela e do seu Filho. A sua imagem brilha com uns traços mais genuínos do que muitos outros que lhe foram acrescentados posteriormente a partir de atributos e títulos mais afastados do clima dos evangelhos.

Maria, «a mãe do meu Senhor». Assim o proclama Isabel aos gritos e cheia do Espírito Santo. É certo: para os seguidores de Jesus, Maria é, em primeiro lugar, a Mãe do nosso Senhor. Este é o ponto de partida de toda a sua grandeza. Os primeiros cristãos nunca separam Maria de Jesus. São inseparáveis. «Bendita por Deus entre todas as mulheres», ela oferece-nos Jesus, «fruto bendito do seu ventre».

Maria, a crente. Isabel declara-a ditosa porque «acreditou». Maria é grande não apenas pela sua maternidade biológica, mas por ter acolhido com fé a chamada de Deus para ser Mãe do Salvador. Soube escutar Deus; guardou a Sua palavra dentro do seu coração; meditou; pôs em prática cumprindo fielmente a sua vocação. Maria é Mãe crente.

Maria, a evangelizadora. Maria oferece a todos a salvação de Deus que acolheu no seu próprio Filho. Esse é o seu grande mistério e o seu serviço. Segundo o relato, Maria evangeliza não só com os seus gestos e palavras, mas porque aonde vai leva consigo a pessoa de Jesus e o Seu Espírito. Isto é o essencial do ato evangelizador.

Maria, portadora de alegria. A saudação de Maria contagia a alegria que brota do Seu Filho Jesus. Ela foi a primeira a escutar o convite de Deus: «Alegra-te... o Senhor está contigo». Agora, desde uma atitude de serviço e de ajuda a quem necessita, Maria irradia a Boa Nova de Jesus, o Cristo, a quem sempre leva com ela. Ela é para a Igreja o melhor modelo de uma evangelização alegre.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Hoje, o que diria João Batista aos líderes da Igreja?

"O que devemos fazer?" (Lucas 3,10-18)

A João Batista esta pergunta foi feita três vezes no Evangelho do Domingo: primeiro pela multidão, depois pelos cobradores de impostos e por fim pelos soldados. As respostas de João são dadas conforme o seu chamado ao arrependimento, no qual ele sempre instrui as pessoas a agirem com justiça para com o próximo. ÀS multidões, João responde: "Compartilhem os vossos bens em excesso." Aos cobradores de impostos: "Não sejam gananciosos." E aos soldados, ele diz: "Não roubem os bens das pessoas nem destruam as suas reputações." Me parecem instruções muito justas.

"O que devemos fazer?" é uma pergunta que todos nos fazemos em momentos de dúvidas, grandes ou pequenas. Nos perguntamos o que fazer, pois o caminho a seguir nem sempre é claro. Nesses momentos, nos voltamos aos grandes símbolos de sabedoria em nossas vidas - pessoas que admiramos e procuramos seguir - em busca de iluminação para nossas mentes e corações. E também nos voltamos às Sagradas Escrituras buscando orientação.

Eu adoraria saber como João Batista responderia essa pergunta aos líderes católicos que decidem demitir seus colaboradores por causa de sua orientação sexual, identidade de gênero ou por manterem um relacionamento com alguém do mesmo sexo. Até porque nestes casos, inevitávelmente, esses senhores devem se perguntar, mesmo que por um momento, "O que devemos fazer?"

Em vez de defender a demissão dos funcionários LGBT, eu acredito que João Batista poderia responder dizendo: "Não privem injustamente as pessoas de seus meios de subsistência" ou talvez "Julguem o trabalho de uma pessoa, não sua orientação sexual." Estas respostas me parecem mais coerentes com o que ele dizia àquelas multidões do Evangelho do que o a decisão tomada por muitos dos nosos líderes e pastores.

Somos responsáveis ​​por nossas escolhas, somos responsáveis pelas nossas respostas à pergunta "O que devemos fazer?" Boas escolhas nos ajudam a crescer em nosso relacionamento com Deus e com o próximo. Más escolhas corrompem essas relações. João prega o arrependimento por nossas más escolhas porque precisamos reparar a desarmonia que criamos através delas. Isso é um desafio permanentemente diante de nós, mas particularmente presente no tempo do Advento quando fazemos uma avaliação moral de nossas escolhas enquanto nos preparamos para o Natal.

Neste terceiro domingo do Advento, rezo para que os líderes da nossa Igreja Católica façam escolhas que respeitem a integridade e a consciência dos seus colaboradores que são gays e lésbicas, e também para que alguns desses nossos líderes façam as pazes com seus funcionários que foram injustamente demitidos. E rezos por vocês e por mim, para que tenhamos a sabedoria e a coragem para fazer boas escolhas e nos arrepender das más.

-Mateus Myers, New Ways Ministry

Tradução de Lucas Paiva para o blog do Grupo de Ação Pastoral da Diversidade

Publicado originalmente em https://newwaysministryblog.wordpress.com/2015/12/13/what-would-john-the-baptist-say-to-church-leaders-today/